Dormir mal virou uma queixa cada vez mais comum entre os brasileiros — e, diante da dificuldade de “desligar” à noite, muita gente recorre a remédios para induzir o sono por conta própria. O problema é que esse atalho costuma sair caro: usados sem orientação, esses medicamentos podem, em vez de resolver, agravar a insônia e mexer com o funcionamento natural do corpo. É o que alerta a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, especialista em saúde mental e distúrbios do sono. Revista Pro
Segundo a médica, os benzodiazepínicos — classe que inclui fármacos como Rivotril e Diazepam — ainda são muito usados no país, mas exigem cautela: têm alto potencial de dependência física e psicológica, e o uso contínuo tende a exigir doses cada vez maiores. Além disso, interferem no sono profundo e no sono REM, justamente os estágios mais restauradores da noite. Revista Pro
Nem mesmo os hipnóticos mais modernos, como o Zolpidem — considerados mais seguros —, escapam do alerta. Na prática clínica, explica a psiquiatra, eles também registram casos de dependência e “não são isentos de riscos”, sobretudo quando o uso é prolongado e sem acompanhamento adequado. Outro equívoco comum é tratar a melatonina como solução para qualquer insônia: apesar de ser um hormônio produzido naturalmente pelo corpo, sua indicação é específica, voltada a situações como jet lag, trabalho noturno e distúrbios do ritmo circadiano. Revista Pro
Isso não significa que medicamentos nunca tenham lugar. A Dra. Caliani pondera que eles podem ser indicados em casos como insônia aguda ligada a eventos estressantes (luto, traumas), distúrbios psiquiátricos agudos, insônia crônica que não responde a abordagens não medicamentosas e situações pontuais. Em quadros associados a outras condições, antidepressivos e antipsicóticos — como mirtazapina, trazodona ou quetiapina — também podem entrar, sempre com atenção às interações e prescritos por um especialista.
O ponto central, porém, é que remédio não costuma ser a primeira escolha. De acordo com os principais guias médicos internacionais, o tratamento mais eficaz para a insônia crônica é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCCI), que reúne técnicas comportamentais e cognitivas para reeducar o sono e ainda trabalha as crenças disfuncionais que perpetuam a dificuldade de dormir.
A mensagem que fica é direta: a insônia é uma desregulação do sistema do sono e pede tratamento individualizado, não uma cartela de remédio comprada por conta própria. Antes de recorrer ao comprimido, o caminho mais seguro — e mais eficaz a longo prazo — é procurar um especialista para entender a causa do problema.
Fonte: Revista Pro – “Uso indevido de remédios para dormir pode piorar a insônia, alerta psiquiatra” — com a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani.