Episódios psicóticos voltaram ao centro do debate público após casos recentes — entre eles a morte do ex-deputado estadual Paulo Frateschi, em São Paulo. Mais do que a repercussão, porém, o tema levanta uma dúvida prática e importante: o que é, de fato, um surto psicótico, e como agir diante de alguém em crise sem colocar ninguém em risco? Em material da Folha de S.Paulo, especialistas explicam. Folha
Um surto ou episódio psicótico é definido pela dificuldade de distinguir o que é real do que é imaginário, e pode ter origem em doenças ou no uso de drogas. Segundo o psiquiatra Mario Louzã, coordenador do Programa de Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do HC-USP, num episódio agudo a pessoa pode ficar agitada, ansiosa, agressiva e com insônia — muitas vezes por causa de ideias de perseguição. Folha
Condições como esquizofrenia, transtorno bipolar, Alzheimer e algumas epilepsias podem ter a psicose entre seus sintomas — e o quadro também pode surgir pelo uso de substâncias, mesmo em quem não tem transtorno diagnosticado. Vale um contexto importante: a imensa maioria das pessoas que convivem com transtornos mentais não é violenta, e episódios como os que ganham as manchetes são exceção, não regra.
E como agir diante de uma crise? O primeiro cuidado, orienta Louzã, é não ficar sozinho com a pessoa se ela estiver agitada ou agressiva. Havendo um diagnóstico conhecido e sinais de que um novo surto está começando, deve-se buscar ajuda médica rapidamente. Quando o psiquiatra não está disponível ou a situação é urgente, o caminho é acionar o SAMU e encaminhar a pessoa ao pronto-socorro, onde poderá ser medicada para reduzir a agitação. Folha
A psiquiatra Maria Fernanda Caliani, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental pela USP, reforça que a prioridade é garantir a segurança de todos — inclusive da própria pessoa em crise. Ela recomenda manter a calma e evitar discussões ou tentativas de convencer o paciente, já que, segundo ela, “nenhum argumento lógico terá sentido” naquele momento. Tentar conter fisicamente sem preparo, alerta, pode piorar a situação; acolhimento, tom de voz tranquilo e a presença de alguém de confiança fazem diferença até a equipe especializada chegar. Folha
Caliani lembra ainda que a Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/2001) reorientou o cuidado em saúde mental no Brasil, priorizando o tratamento em liberdade, próximo da família e da comunidade, com o mínimo de internação possível. A internação, pela lei, só se justifica quando há risco real à vida do paciente ou de terceiros e quando os recursos ambulatoriais não são suficientes.
A mensagem que fica é dupla: surto psicótico é uma emergência de saúde, não uma falha de caráter — e, diante de uma crise, o melhor que se pode fazer é proteger a pessoa, manter a calma e buscar ajuda profissional imediata, em vez de tentar resolver sozinho.
Onde buscar ajuda: em emergências, ligue para o SAMU (192). Para apoio emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia. O acompanhamento contínuo em saúde mental pode ser feito pelos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da rede pública.
Fonte: Folha de S.Paulo / Equilíbrio – “Entenda o que é um surto psicótico e como ajudar o paciente de forma segura” — com os psiquiatras Mario Louzã (IPq-USP) e Maria Fernanda Caliani.