Medicamentos amplamente prescritos e considerados seguros podem, em situações raras, provocar efeitos neuropsiquiátricos — e o tema voltou ao debate depois que o ex-presidente Jair Bolsonaro relatou ter tido alucinações que atribuiu ao uso de remédios. Para esclarecer o que a medicina realmente diz sobre esse tipo de quadro, o neurologista Dr. Saulo Nader e a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani explicaram os conceitos envolvidos e o que se sabe sobre o assunto. Diário do Vale
Antes de tudo, vale separar os termos. Segundo a Dra. Caliani, a alucinação acontece quando a mente percebe algo que não existe — ver imagens ou ouvir vozes inexistentes —, enquanto o delírio são ideias desconectadas da realidade, como a sensação de estar sendo perseguido. Os dois fenômenos fazem parte do que a psiquiatria chama de psicose. Diário do Vale
O assunto ganhou repercussão quando Bolsonaro afirmou ter visto e ouvido coisas inexistentes, chegando a acreditar que havia um microfone em sua tornozeleira eletrônica — episódio que ele associou à combinação de medicamentos como a pregabalina e a sertralina. A primeira é indicada para quadros de ansiedade e dor crônica; a segunda é um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina.
Os especialistas reforçam o ponto central: esses efeitos são raríssimos. A Dra. Caliani explica que remédios seguros podem, em casos excepcionais, desencadear percepções distorcidas da realidade — sobretudo quando há interação com outras substâncias, mudança de dose ou uso sem supervisão contínua. O Dr. Saulo Nader acrescenta que prescreve essas medicações com frequência e que, embora nunca tenha presenciado um caso assim ao longo da carreira, eles existem na literatura médica. Diário do Vale
A mensagem dos dois é de contexto e cautela: a imensa maioria das pessoas usa esses medicamentos sem qualquer problema. Mais do que cravar uma explicação para um caso específico, os médicos fazem questão de frear conclusões apressadas. Como resume a Dra. Caliani, “ninguém diagnostica um caso assim pela imprensa” — um diagnóstico definitivo exige avaliação psiquiátrica e neurológica detalhada.
O recado final vale para qualquer pessoa, independentemente do caso que motivou a discussão: alterar doses ou combinar medicamentos deve ser feito apenas com orientação profissional, justamente para reduzir o risco de efeitos inesperados.
Fonte: Diário do Vale – “Alucinações e remédios: médicos explicam caso raro citado por Bolsonaro” — com o neurologista Dr. Saulo Nader e a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani.